Entrevista aos Meu Outro Tanto

Publicado em 14 Novembro, 2014 Por...Jorge Silva Medeiros » Entrevista, Slider

 

A banda de rock português lança Círculo Absurdo, no próximo dia 22 de Novembro, o projecto nascido no Porto conta tudo sobre o disco.

 

Como foi o início da carreira da banda?
Percorremos o caminho típico de uma banda que se está a formar. Começamos por juntar os membros certos, compusemos diversas ideias e começamos a definir o caminho musical a seguir, que culminou nos temas que farão parte do nosso primeiro álbum.

 

Quem são as vossas principais influências musicais?
Apesar de existirem nomes que são transversais aos gostos de cada um dos membros, onde se calhar os mais óbvios, por terem alguma sonoridade semelhante, são bandas como A Perfect Circle ou Circa Survive, todos têm igualmente um universo próprio de gostos mais pessoais, que inevitavelmente estão presentes no input que cada um dos músicos transmite aos restantes na fase de composição e se traduz na roupagem que damos nos nossos temas e no ambiente que eles criam.

 

O disco foi gravado no Sarm Studios em Londres por Luís Jardim, como correu, essa experiência?
A experiência foi ótima em diversos sentidos. O Luís proporcionou as condições para gravarmos nesse estúdio, onde já foram gravados álbuns de nomes incontornáveis do panorama musical, tais como Queen, Led Zeppelin, Rolling Stones, Bob Marley, Madonna, Seal, entre muitos outros. Tivemos oportunidade de conhecer uma realidade totalmente diferente da que se vive em Portugal, com outra maneira de trabalhar e estar na música, mais profissional mas simultaneamente mais descontraída também. De um ponto de vista mais técnico, também foi algo muito positivo para nós, porque gravamos tudo directo e em simultâneo, como um “live act”, que permitiu captar e absorver uma performance mais genuína e coesa da banda, o que achamos ser percetível ao ouvir o disco.

 

Ser do Norte viver no Porto, será mais difícil partir e conquistar um lugar de destaque em Portugal?
Ainda existe um pouco a noção de que o nosso país é muito grande e que é difícil chegar aqui ou ali. Por um lado, é um facto que as maiores estações de televisão e rádio, entre outros órgãos ligados ao mundo da música, estão sediados em Lisboa e trabalham essencialmente nesse meio, que fica a 3 horas de viagem do Porto. Curiosamente, somos o exemplo vivo de que essa barreira é bastante psicológica, uma vez que a banda é Portuense e o Tobel, vocalista, é de Lisboa. Se nos compararmos geográfica e demograficamente com um mercado como, por exemplo, o Americano, que é uma referência mundial inquestionável, estamos a falar de um universo que ultrapassa os 300 milhões de habitantes, espalhados por mais de 4000 km de costa a costa, e no entanto a música e os eventos chegam a todo o lado. Não se trata de distâncias, trata-se sim de saber cultivar a (boa) cultura musical, promove-la ao máximo e criar as sinergias para o fazer. É tudo uma questão de vontade, sobretudo por parte de quem tem os meios para criar as condições para os músicos exporem o seu trabalho. Nos últimos anos, temos vindo a assistir a um aparecer de diversos festivais, alguns mesmo de menor expressão e dimensão, o que é ótimo e animador para a cultura musical em Portugal. Voltando à questão inicial, e em jeito de conclusão, se o trabalho tiver qualidade, for honesto e conseguir tocar de algum modo as pessoas que o ouvem, então tem tudo para resultar, independentemente da banda ser oriunda desta ou daquela cidade.

 

 

Que tipos de música costumam ouvir?
Esta é daquelas questões que encheria páginas e páginas, não só de estilos mas sobretudo de nomes. Um pouco à semelhança da questão das influências musicais, todos têm um background de gostos relativamente idêntico, crescemos a ouvir os mesmos nomes e continuamos a ouvir novos nomes que vão surgindo. Desde nomes da velha guarda, como The Beatles, The Doors ou Pink Floyd, como bandas atuais ou de um passado mais recente, como Korn, Deftones ou Tool, passando por universos mais alternativos, onde destacamos nomes tão distintos tais como Karnivool, The Dillinger Escape Plan, IAMX ou Explosions In The Sky… a lista é simplesmente infindável. Provavelmente a resposta mais cliché é também a mais honesta: ouvimos de tudo um pouco, desde que nos diga algo e tenha qualidade.

 

Qual a meta… vender muitos discos, tocar ao vivo, ou um carreira total na musica?
De um ponto de vista mais prático e fazendo uma análise mais fria da música, é preciso ter algo que seja sustentável, sobretudo a nível financeiro, para que se possam criar as condições necessárias para continuar a desenvolver o nosso trabalho. Nos dias que correm, esse retorno chega essencialmente via espetáculos ao vivo. De um ponto de vista mais emocional e em termos de realização pessoal e artística, regra geral, qualquer músico é alimentado pelo sonho, por mais utópico que seja, sobretudo no mercado lusófono do rock, de ter uma carreira no mundo da música e conseguir o tal “viver da música”. Acima de tudo, é preciso ter a consciência de que para viver da música, em primeiro lugar é preciso estar disposto a viver para a música e viver com todas as consequências e dificuldades que isso representa. É preciso saber gerir expectativas, ter uma capacidade de sacrifício gigante, saber gerir momentos de frustração e dificuldade, que obviamente também são muitos, e continuar a ter a força interior de nos auto motivarmos para manter acesa a chama de acreditar que “um dia chegarás lá”. No fundo, e isso é o mais importante e gratificante no meio disso tudo, tocar ao vivo, chegar às pessoas, provocar um “click” em quem nos está a ouvir e sentir que o nosso trabalho é apreciado e valorizado, que é a maior recompensa – não material – que podemos ter.

 

Qual é o vosso sonho para os próximos tempos?
Neste momento temos um disco pronto a apresentar, chama-se Círculo Absurdo e terá lançamento online dia 22 de Novembro. A nossa prioridade é divulgar ao máximo este primeiro registo, dá-lo a conhecer às pessoas de todas as maneiras possíveis. Se tivéssemos de empregar o termo sonho, então o sonho passaria por esperar que o nosso trabalho fosse reconhecido e que as pessoas vissem nele a qualidade que ele tem aos nossos olhos.

 

O que acham do atual panorama da música em Portugal?
Algo que está um pouco confuso, se calhar fruto dos “tempos de crise” ou mesmo de uma geração mais nova que não vive nem consome a música da mesma maneira que as gerações anteriores. Vivemos nos tempos da internet, em que tudo está disponível em qualquer lado, das redes sociais, do pouco tempo para fazer cada vez mais, do “usar e deitar fora”, do facto das coisas serem mais efémeras e consequentemente mais desvalorizadas. Isso é algo transversal à sociedade atual e, obviamente, estende-se ao mundo da música e da cultura musical. Por um lado temos mais iniciativas, como este “boom” de pequenos festivais, o que é excelente para promover a música, mas sentimos que ainda falta por parte das pessoas aquela cultura de realmente consumir verdadeiramente a música. Nós somos do tempo de ficar horas a fio em frente a uma aparelhagem de auscultadores no ouvido e devorar letras das nossas bandas preferidas, ir a concertos e sentir que aquela hora e meia era um dos pontos altos das nossas vidas, quando ainda eramos meros adolescentes. Hoje em dia a malta nova procurar tendencialmente outro tipo de coisas, talvez mais sociais. O concerto é visto mais como uma diversão social e se calhar perdeu-se um pouco o “culto” de seguir uma banda, como se de algo quase religioso se tratasse. Essa é uma nova realidade e, obstáculo ou não, é preciso sabermos adaptar-nos a ela. Noutras realidades, como por exemplo Londres, tens concertos em qualquer lado e dia da semana. As pessoas aderem, mesmo que sejam bandas ou artistas desconhecidos, uma cultura e hábitos que ainda não temos cá. É algo que temos de mudar aos bocados.

 

E dos sites de musica em Portugal?
O facto de vivermos nos tempos das redes sociais e da internet e, consequentemente, da música digital, também tem o seu lado positivo. Existe uma maior facilidade em divulgar e apresentar novos trabalhos e, nesse campo, os sites de música, sejam de venda online ou de imprensa, assumem um papel fundamental nesta nova realidade. Felizmente são cada vez mais, o que é positivo.

 

O festival de estimação?
Seguindo este espírito de honestidade que esteve presente em todas as respostas até agora, todos aqueles que nos quiserem presentes no seu programa.

 

Um pensamento para partilhar com os leitores!
Não percam mais tempo a ler o que estamos para aqui a dizer, comprem o nosso disco e vão ver Meu Outro Tanto ao vivo.

 

 

 

 

 

 


Editor de música Jorge Medeiros tenta saber e dizer algo sobre cultura do Mundo. Vive principalmente de radio e da sua fina cabeça, também da internet e do seu site de musica.

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